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Archive for the ‘Cirurgia’ Category

-Doutor, depois da minha cirurgia vai ficar cicatriz?

 Todo o cirurgião já ouviu essa pergunta. No consultório privado, nos ambulatórios de hospitais públicos, em todo o lugar que haja um paciente para ser operado haverá essa dúvida. No consultório do mastologista, essa pergunta ganha um caráter de máxima importância. A mama feminina não é só o órgão de produção de leite ou um dos órgãos relacionados ao ato sexual. Desde o princípio da civilização a mama representa a feminilidade. Seu desenho inspira um inifito número de obras de arte, que ora retratam a delicadeza feminina, ora retratam a capacidade da mulher nutrir de alimento e de carinho suas crias. Todos nós somos iniciados na vida pelo contato com a mama, no momento em que somos nutridos pela primeira vez.

A Vênus de Willendorf foi esculpida entre 24.000 e 22.000 A.C., no período paleolítico. Observe o destaque dado às mamas, ao abdome e à vulva, como símbolos da fertilidade feminina. Naturhistorisches Museum, Viena, Áustria.

Retrato de Mulher Nua, de Rafael Sanzio (1518-1520). Os historiadores discutem se a mão direita sobre a mama esquerda esconderia um tumor de mama da modelo, conhecida como La Fornarina, ou se seria apenas uma representação de amor. Galleria Nazionale D’Arte Antica, Roma, Itália.

O Sonho, de Pablo Picasso (1932). O estilo do quadro, de linhas simples e cores fortes usa um semicírculo branco para sugerir a mama. Não obstante, a pintura é apontada e criticada como uma das obras mais eróticas do artista. Nela, está retratada Marie-Therèse Walter, sua amante. Coleção Steve Winn, USA.

 

Podemos dizer que, após uma cirurgia de mama, sempre há uma cicatriz. É comum que as pacientes tenham dúvidas antes da cirurgia sobre o resultado estético da cicatrização. Os médicos notam resultados variáveis em um mesmo tipo de cicatriz quando uma mesma cirurgia é feita em pacientes diferentes. Como podemos prever com exatidão o resultado estético de uma cicatriz?

Não há resposta para a pergunta. O médico não pode prever com certeza absoluta qual será o resultado estético de uma cicatriz cirúrgica. Por outro lado, o médico conhece os fatores que determinam uma boa cicatrização e, antes da cirurgia, pode eliminar ou atenuar os que podem ser modificados.

Esses fatores são divididos entre os fatores relacionados à paciente e os relacionados à cirurgia. Em relação à paciente o diabetes e o tabagismo são duas condições que pioram a cicatrização e podem ser melhoradas antes da cirurgia. As pacientes fumantes tem cicatrização alterada, têm maior risco de infecção local e produzem menos colágeno do que as não-fumantes, formando tecidos cicatrizados mais frágeis. Parar de fumar terá o efeito de melhorar as condições imunológicas locais, a oxigenação tecidual e a produção de colágeno. O diabetes também predispõe à infecções da cicatriz, e o controle da doença no período da cirurgia é essencial.

A cor da pele também influi: quanto mais clara pele, melhor é o resultado estético da cicatriz. Dessa forma, os melhores resultados estéticos são obtidos nas pacientes de pele branca, não-bronzeada, e os resultados menos satisfatórios são obtidos nas pacientes de pele escura ou negra. Nelas, é importante avaliar se há a tendência à formação de quelóides ou de cicatrizes hipertróficas. Essas não são regras absolutas; pode haver pacientes negras com boa cicatrização e excelente resultado estético e pacientes brancas com quelóides. Para a formação de quelóides e cicatrizes hipertróficas, o local em que a cicatriz será feita também é importante. As cicatrizes sobre o esterno (osso do peito) e sobre as escápulas têm a tendência a serem mais hipertróficas ou queloidianas.

Como já dissemos em relação às diabéticas e às fumantes, a presença de infecção no tecido impede a cicatrização adequada. No caso de cirurgias que são feitas para tratar uma infecção – como o abscesso de mama – podemos esperar que enquanto não haja cura da infecção a cicatriz não se feche. A secreção produzida pelo processo infeccioso drena pela cicatriz aberta, o que é essencial para a cura da infecção. O que pode parecer um contratempo é na realidade uma parte do tratamento.

O cirurgião contribui com a técnica operatória para que a cicatriz seja esteticamente satisfatória. Na mama, o primeiro passo é escolher onde a cicatriz será feita. Existem reparos anatômicos, sulcos e linhas naturais da pele que permitem fazer uma cicatriz discreta, pouco aparente, de bom resultado. Nos melhores casos, pode ser difícil para olhos sem treino encontrar a marca da cirurgia em uma mama com boa cicatrização e operada com técnica adequada. Nem sempre é possível utilizar-se dos reparos anatômicos para a cirurgia. Nos casos em que é a doença da mama pede uma cirurgia mais ampla pode haver como resultado uma cicatriz evidente.

A cicatrização é um processo complexo e demorado que depende das condições de saúde da paciente, das características próprias de cicatrização individual e da técnica cirúrgica. Não é possível prever antes da cirurgia como ficará uma cicatriz, mas é possível modificar fatores que contribuem para um mau resultado estético.

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