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Posts Tagged ‘Radioterapia’

Efeito da Radioterapia após Mastectomia

A mastectomia é a técnica cirúrgica na qual toda o tecido mamário é removido. Dependendo do tamanho do tumor, ela é complementada por radioterapia, aplicada sobre o tórax, na área correspondente à mama.

O estudo mais abrangente sobre radioterapia após mastectomia é o EBCT Collaborative Group Overview. Nele foram incluídos os resultados de 40 de um total de 45 ensaios clínicos randomizados sobre radioterapia e tratamento de câncer de mama. O total de pacientes estudadas foi superior a 20.000 mulheres.

A redução do número de recorrências no tórax após 20 anos de tratamento foi de 2/3; de 30,1% para 10,4%. Também houve redução do número de recorrências para qualquer local após 20 anos, com diferença absoluta de 7,4%. A diferença de sobrevida foi marginal, em favor para as mulheres tratadas com radioterapia, da ordem de 3,9% ao ano (P=0,06). A principal crítica ao EBCT é a inexistência de terapias sistêmicas efetivas e de megavoltagem na época de randomização.

Os trials DBCG 82b e BCCA randomizaram mulheres de alto risco para receberem radioterapia após mastectomia e CMF. As pacientes foram consideradas de alto risco se tivessem axila positiva, ou no DBCG invasão de pele, de fáscia peitoral ou tumores T3.

Com 10 anos de seguimento, no DBCG o risco de recorrência foi reduzido de 32% para 9% (P=0,001). A sobrevida livre de doença nos braços controle e radioterapia foi de 34% e 48%, respectivamente (P<0,001) e a sobrevida global foi de 45% e 54% (P<0,001). A análise de subgrupos mostrou benefício independente do número de linfonodos removidos, do número de linfonodos positivos, do tamanho do tumor e do grau histopatológico. Em relação ao tipo histológico, as pacientes que tinham carcinoma ductal foram as que mais se beneficiaram. A análise multivariada demonstrou uma redução de risco de 41% de qualquer recorrência ou morte e redução de 29% de morte por qualquer causa.

Com 15 anos de seguimento, o BCCA teve resultados similares ao DBCG. O risoc de recorrência com o tórax como primeiro local, sem falha sistêmica, diminuiu após radioterapia, e a sobrevida livre de doença e sobrevida específica de câncer de mama melhoraram, de 33% para 50% (P=0,007) e 47% para 57% (P=0,05). Nova atualização mostra uma diferença de 9% entre os braços em favor da radioterapia.

Novamente, as críticas ao trabalho concentram-se no esquema quimioterápico utilizado (CMF), sem antraciclina, que tem desempenho inferior. Essa crítica repete aquela feita ao EBCT e considera que os resultados negativos desse trabalho não foram incluídos, o que favoreceria a radioterapia após mastectomia.

Nova metanálise foi conduzida então, para inclusão de todas as pacientes submetidas a mastectomia e quimioterapia. Os resultados demonstraram uma redução de risco de recorrência local para as pacientes randomizadas para radioterapia (OR 0,25, p<0,000001), e redução para o risco de qualquer recorrência (OR 0,69, P=0,00004), e menor mortalidade (OR 0,83, P=0,004).

Indicação de Radioterapia após Mastectomia

Usualmente, a radioterapia após mastectomia é indicada para pacientes com 4 ou mais linfonodos comprometidos. O benefício nesse subgrupo de pacientes parece ser constante, de aproximadamente dois terços de um risco de 10 a 15% de recidiva, num intervalo de tempo de 10 anos. Em tese, pacientes com um a três linfondos comprometidos têm menor risco de recidiva sistêmica, e teriam mais benefício em receberem tratamento que desempenhasse bom controle local de doença. Os trials já fechados têm poucas pacientes nesse grupo e não têm poder estatístico suficiente para mostrar diferenças significativas. Além disso, a toxicidade cardíaca da radioterapia deve ser considerada em uma doença com longa sobrevida, em que a toxicidade quimioterápica será adicionada ao tratamento. Assim, não é indicada radioterapia para pacientes pós-mastectomia, com um a três linfonodos comprometidos.

Consenso

O Painel do NIH sobre Terapia Adjuvante no Câncer de Mama Operável, a Sociedade Americana de Radiologia Terapêutica e Oncologia, o Colégio Americano de Radiologia e a Sociedade Americana de Oncologia Clínica recomendam o uso de radioterapia pós-mastectomia para pacientes com quatro ou mais linfonodos comprometidos, lesões T3 ou T4, ou tumores que envolvam a pele e a musculatura adjacente.

Baseado nos padrões de recorrência, a parede torácica deve ser tratada em todas as pacientes que recebam radioterapia pós-operatória. Para pacientes com quatro ou mais linfonodos axilares, é dado tratamento das regiões supraclavicular e infraclavicular. Para pacientes com um a três linfonodos comprometidos, o beneficio do tratamento dessas áreas é controverso, e elas não são incluídas. A radioterapia axilar é formalmente desencorajada para pacientes que recebem dissecção axilar completa nos níveis I a III pela falta de benefícios comprovados e pelo risco de linfedema pós-operatório. A radioterapia axilar não é recomendada para pacientes que recebam dissecção axilar dos níveis I e II na ausência de doença residual.

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Imagem tomográfica de planejamento de radioterapia sobre a mama. A área circulada em vermelho corresponde ao coração, a linha laranja, à pele, e a área delimitada pela linha verde é o alvo da radioterapia.

Esse post é melhor compreendido se lido após o post Radioterapia no câncer de mama I

Como pode ser feita a radioterapia para o câncer de mama?

As técnicas de radioterapia foram desenvolvidas de forma que a paciente possa receber o tratamento de uma fonte externa na técnica chamada de telerradioterapia, ou de fontes de radiação implantadas na mama, na técnica chamada de braquiterapia. Por uma questão de clareza e simplicidade, referiremo-nos à técnica de telerradioterapia chamando-a apenas de radioterapia, uso comum e consagrado na prática médica diária.

A radiação pode ser dada à mama intacta, à mama operada em que foi feita uma cirurgia conservadora ou à parede torácica, após cirurgia radical de mama. Cada uma das indicações tem vantagens e desvantagens próprias e só com o estudo detalhado das condições da paciente e dos resultados esperados do tratamento que cada uma das técnicas pode ser indicada.

O radioterapeuta, ou radio-oncologista, é o médico que planeja e executa o tratamento radioterápico. No Brasil, o radioterapeuta é um médico que passou por um período de treinamento em serviço de radioterapia de no mínimo dois anos. Após isso, ele é reconhecido como médico radioterapeuta pelo Ministério da Educação, ou pela Associação Médica Brasileira. É necessário, além do trabalho do radioterapeuta, o auxílio de diversos profissionais, como físicos, físicos-médicos, engenheiros e técnicos especializados para o funcionamento de um serviço de radioterapia. Além das pessoas envolvidas em todo o processo, é necessário um edifício projetado especialmente para alojar o equipamento de radioterapia, o bunker, cujo custo pode ultrapassar o milhão de reais.

Modernamente, a radiação pode ser entregue aos tecidos da mama durante a cirurgia, através de um acelerador linear portátil ou de aceleradores convencionais. A técnica, ainda não amplamente difundida, chama-se radioterapia intra-operatória.

Quantas doses são necessárias para o tratamento de radioterapia?

No tratamento convencional, a mama inteira ou a parede torácica recebem uma dose de 46 a 50 Gy (Grey, unidade de medida de radiação ionizante). A dose é dividida em 25 a 28 frações, uma fração por dia, 5 dias por semana. A quantidade de radiação dada por fração de 1,8 a 2 Gy. Recentemente, o regime de fracionamento convencional apresentado acima foi testado em comparação a esquemas mais curto, de 13 a 15 doses, no START Trial A e B.

Quando é feita cirurgia conservadora da mama, após a dose convencional, um dose adicional de 10 a 15 Gy pode ser dada sobre a área da cicatriz, que é o local da mama mais sujeito a recorrência do câncer. Normalmente, um feixe de elétrons é utilizado na técnica. A dose adicional oferece maior controle da doença, especialmente em mulheres mais jovens.

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The UK Standardization of Breast Radiotherapy (START) Trial Bs of radiotherapy hypofractionation for treatment of early breast cancer: a randomised trial.

  • Delineamento: ensaio clínico randomizado
  • Número de pacientes: 2215.
  • Critérios de inclusão: câncer de mama operado, sem reconstrução imediata, com margens >= 1mm, T1-T3a, N0-N1
  • Desenho: após randomização, os pacientes eram tratadas em dois braços:
    • Radioterapia 50 Gy em 25 frações de 2,0Gy em 5 semanas
    • Radioterapia 40 Gy em 15 frações de 2,67Gy em 3 semanas.

O objetivo é determinar se há benefício em reduzir a dose total e o número de frações de radioterapia no tratamento do câncer de mama, e se há toxicidade no aumento da irradiação por fração de dose.

  • Seguimento médio: 6 anos.
  • Desfechos primários: comparar os grupos de pacientes em relação a recidiva local e a efeitos adversos da radiação e qualidade de vida.
  • Resultados:
    • Falha local nos grupos: 50Gy 2,2% (IC 95% = 1,3-3,1); 41,6Gy 3,3% (IC 95% 2,2-4,5).
    • Diferença entre os grupos de 0,7% (IC 95% 1,7% – 0,9%
  • Conclusão: a dose de 40Gy oferece resultados sobre o controle local e estéticos tão bons quanto o esquema de 50Gy.

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The UK Standardization of Breast Radiotherapy (START) Trial A of radiotherapy hypofractionation for treatment of early breast cancer: a randomised trial.

  • Delineamento: ensaio clínico randomizado
  • Número de pacientes: 2236.
  • Critérios de inclusão: câncer de mama operado, sem reconstrução imediata, com margens >= 1mm, T1-T3, N0-N1
  • Desenho: após randomização, os pacientes eram tratadas em dois braços:
    • Radioterapia 50 Gy em 25 doses
    • Radioterapia 41,6 Gy em 13 frações
    • Radioterapia 39 Gy em 13 frações

O objetivo é determinar se há benefício em reduzir a dose total e o número de frações de radioterapia no tratamento do câncer de mama.

  • Seguimento médio: 5 anos.
  • Desfechos primários: comparar os grupos de pacientes em relação a recidiva local e a efeitos adversos da radiação e qualidade de vida.
  • Resultados:
    • Falha local nos grupos: 50Gy 3,6% (IC 95% = 2,2 – 5,1); 41,6Gy 3,5% (IC 95% 2,1-4,3); 39Gy 5,2% (IC 95% 3,5-6,9).
    • Diferença entre os grupos comparados à dose de 50Gy: 0,2% para 41,6Gy e 0,9% para 39Gy.
    • Houve mais pacientes tratadas no grupo de quimioterapia neoadjuvante que se submeteu à tumorectomia mais radioterapia do que no grupo tratado com cirurgia (67,8% vs. 59,8%).
  • Conclusão: as doses de 50Gy e 41,6Gy se equivalem em relação a resultados no tratamento do câncer de mama.

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Fonte de cobalto de radioterapia. O cobalto-60 foi a mais importante fonte de radiação terapêutica no século XX.

O que é radioterapia?

A radioterapia é uma forma de tratamento de câncer que utiliza a radiação ionizante para causar dano aos tecidos. A emissão de radiação é uma característica física de alguns elementos da natureza e de alguns criados em laboratório, em condições especiais – os elementos radioativos. Em medicina, na prática, o elemento radioativo utilizado é o cobalto-60 (Co 60), por fornecer um feixe de energia alta o suficiente para ser útil no tratamento. Modernamente, os aparelhos de radioterapia de cobalto-60 estão sendo substituídos por aceleradores lineares.

Modelo eletrônico do átomo de rádio, o primeiro elemento radioativo estudado. O ponto azul no centro representa o núcleo, os pontos dourados dispostos em camadas, os elétrons.

Quais são as formas de radiação utilizadas no tratamento do câncer?

A radiação ionizante pode se apresentar de diversas formas. Os raios-X foram a primeira fonte utilizada de radiação para aplicações médicas. Os raios-X são produzidos quando é retirado todo o ar de dentro de um tubo de vidro e ele é lacrado, de forma que não ocorra trocas de gás entre o  ambiente externo e o interno. Em um dos pólos desse tubo, fica um eletrodo negativo, ou cátodo, e um eletrodo positivo, ou ânodo. Quando é aplicada uma diferença de voltagem entre o cátodo o ânodo, por exemplo, ao se passar uma corrente elétrica pelo cátodo, são emitidos elétrons do cátodo em direção ao ânodo, dentro do tubo de vidro, e colidem com um alvo metálico. Essa colisão produz os raios-X, que são utilizados em inúmeros equipamentos de diagnóstico por imagem até hoje.

Para o tratamento, é bastante importante a quantidade de energia que os raios-X carregam. Ao partirem do alvo metálico, os raios-X tem diversas quantidades diferentes de energia. A quantidade máxima de energia é dada pela diferença de voltagem aplicada entre o cátodo e o ânodo. Assim, um pico de voltagem de 250 quilovolts, ou 250.000 volts (250kV), os elétrons vão atingir o alvo com energia máxima de 250 quiloeletron-volts (250eV) e os raios-X terão energia máxima de 250quilovolts (250kV).

Os aceleradores lineares, mencionados na entrada anterior, funcionam pelo mesmo princípio que os tubos de raios-X. O cátodo dos aceleradores lineares é aquecido a temperaturas muito altas, de até 1000 graus Celsius, o que possibilita um feixe com maior quantidade de elétrons do que o tubo de raios-X. A maior quantidade de elétrons no feixe dá maior intensidade de energia, já que há mais elétrons para a colisão com o alvo. O feixe passa por uma série de câmaras com diferenças de voltagem capazes de acelerá-lo à velocidade aproximada da luz, e vai de encontro a um alvo de tungstênio (ou cabeça), que produz fótons de alta energia. Os fótons de alta energia vão de 1mega-eletronvolt (1MeV) até 25 mega-eletronvolts (25MeV), ou  de 1 milhão a 25 milhões eletronvolts.

Foto de um acelerador linear. O braço em forma de C movimenta-se ao redor do leito para direcionar o feixe de fótons em direção ao tumor.

Os fótons de maior energia têm maior penetração nos tecidos e fornecem quantidades de energia maiores para tratamento do câncer. Além disso, por suas propriedades físicas, eles têm a capacidade de “selecionar” e atingir preferencialmente os tecidos moles, em oposição aos ossos.

Alternativamente, os aceleradores lineares podem fornecer feixes de elétrons de alta energia. Os feixes de elétrons têm como característica a baixa penetração tecidual, o que pode ser útil no tratamento de tumores superficiais.

Existem outras formas de radiação ionizante?

Sim. A radiação gama também é formada por fótons e é produzida pelo cobalto-60 e pelas fontes de braquiterapia, como irídio-192 e césio-137. O iodo-125 também emite radiação, porém é do tipo beta e tem baixa voltagem (elétrons). Ele é utilizado no tratamento do câncer de tireóide. Existem outras fontes de radiação utilizadas em diagnóstico na medicina que podem ser consultadas em outras fontes.

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